TRANSFORMANDO PERDAS EM GANHOS (Jó 1.13-22)

Atendi, em meu escritório pastoral, uma jovem senhora que buscava apoio espiritual. Acabara de perder seu pai, três meses depois de ter perdido seu irmão caçula. A queixa deixava entrever sua dor: “Está tão difícil superar essas perdas.” Depois de nossa conversa, ela fez uma observação: “Eu nunca ouvi uma mensagem do senhor sobre perdas.”

Isso soou como uma delicada sugestão. Perder faz parte do jogo da vida, mas o fato é que ninguém gosta de perder. Toda perda gera um sentimento de frustração e de dor.

A perda é um personagem sempre presente na história de nossa vida. Todos nós estamos sempre passando pela experiência de perder. Perder alguém, alguma coisa, algo que nos é tão querido.

Nenhuma mensagem sobre perdas pode ignorar a vida e a experiência de Jó. 

Jó viveu num tempo em que tudo parecia correr maravilhosamente bem em seu mundo. Na sua biografia, nenhum traço de perda, nenhuma tristeza, nenhuma dor.

O relato inicial sobre Jó revela que ele vivia num ambiente saturado de harmonia. Seu lar era aquecido pela comunhão em família.

Tinha ele 7 filhos e 3 filhas. Ter filhos era sinal de que as bênçãos de Deus estavam sobre o lar. Os filhos eram considerados herança do Senhor.

Além disso, Jó era muito rico. De nada tinha necessidade.

No entanto, esse cenário de bem aventurança muda radicalmente de um momento para o outro. Toda tragédia de Jó vai ser manifestada na forma de perda.

Ele perde todos os seus bens. Arruinado, tudo o que conquistara com sacrifício estava destruído como num passe de mágica. O maior fazendeiro do Oriente estava na bancarrota.

Esse é um símbolo de um tipo de perda muito conhecido da experiência de todos nós. Perdas financeiras têm abalado muitas vidas. Quantos problemas têm sua origem nas dificuldades de ordem financeira!

São os negócios que estão parados, os investimentos que não dão certo, a estabilidade no emprego que está ameaçada, o desemprego, o aluguel, o plano de saúde.

Na verdade, as perdas financeiras são grandes entraves ao equilíbrio das pessoas e das famílias.

E Jó não sofreu apenas a perda dos seus bens. Sofreu também a perda dos filhos.

Não era apenas um homem rico; era também um pai piedoso. Sua maior riqueza não eram os bens, mas os filhos. Estes eram seus verdadeiros tesouros. Ele vivia na presença de Deus cuidando espiritualmente dos filhos. Oferecia sacrifícios a Deus em favor dos filhos.

Há muitas pessoas que lutam com determinação para alcançar sucesso financeiro e até conseguem, mas não lutam com a mesma garra pelos filhos. Ganham dinheiro, mas perdem os filhos.

Jó, não. Ele cuidou dos filhos. Lutou pelos filhos junto a Deus, mas, mesmo assim, foi surpreendido pela mais terrível notícia: seus 10 filhos tinham sido mortos.

Essa perda rasgou o seu coração de pai. Caiu em prantos. Era a dor do luto. Para ele parecia não haver mais futuro.

Quantos pais também choram, em silêncio, a perda de seus filhos! Não só a morte física, mas a morte psicológica, a morte moral, a morte espiritual! Perderam os seus filhos para os vícios, para o crime, para a violência.

Jó perdeu seus bens, seus filhos e também sua saúde. Foi ferido pela enfermidade da cabeça aos pés. Seu corpo ficou uma chaga só. A aparência de Jó desfigurou-se. Não havia remédio que trouxesse alívio à sua dor.

As perdas de Jó são também as nossas perdas. Essa dolorosa experiência de perder a saúde se repete também na experiência de todos nós. Todos nós, de quando em quando, somos chamados a beber do cálice amargo da enfermidade.

É a doença crônica que se recusa a ceder. É o drama do diagnóstico sombrio. É o temor da cirurgia grave. É a ansiedade da espera.

Experiência terrível a da enfermidade que bate em nossa porta e entra sem pedir licença, invade a nossa vida, pisa nossas emoções e esvazia os nossos sonhos.

Jó perdeu os bens, perdeu os filhos, perdeu a saúde e perdeu também a esposa. A mulher de Jó não suportou tamanha pressão. Cerrou os punhos em sinal de inconformidade e se revoltou contra Deus. Quis arrastar consigo o marido para as profundezas do abismo.

A mulher de Jó desistiu do companheiro na hora em que ele mais precisava dela. Ela estava acostumada com os sucessos, mas não suportou as perdas. Ao invés de se colocar ao lado de Jó como consoladora, agravou ainda mais a sua dor.

Muitos enfrentam a mesma situação quando têm de enfrentar perdas sem a sua relação conjugal. A revolta destrona a confiança, expulsa o amor e o casamento naufraga. Há muitos casamentos doentes e muitos casais sem esperança.

A maneira como Jó superou as perdas que atingiram a sua vida chega a incomodar um espírito mais crítico e analítico. Ele não as negou. Tão pouco as sublimou. Simplesmente enfrentou tudo da perspectiva de Deus.

Para vencermos as dores das perdas, é necessário entender que somos mais do que perdemos. Nossa vida é maior que a perda sofrida.

Quando ocorrem as perdas, é importante colocarmos em prática alguns princípios que ajudam a superar essas horas.

Primeiro cuidado: Cuidado com os amigos!

Os amigos de Jó, por mais compassivos que fossem, não foram capazes de alcançar a profundidade da sua dor.

Os amigos que não compreendem a profundidade da dor provocada pela perda pela qual você está passando vão sempre oferecer soluções fáceis que nada resolvem. Vão lembrá-lo que o mundo está cheio de gente com problemas maiores que o seu.

São como os amigos de Jó. Parecem ter todas as respostas na ponta da língua, mas nada podem fazer para livrar alguém.

Se você está só, esteja atento aos conselhos. Todos conhecemos as frases: “Com o tempo, passa” como um remédio para os nossos males.

Na verdade, o tempo não cura nada. Só Deus é que pode curar com o tempo e no tempo.  

Segundo cuidado: Corte o cordão umbilical que o prendia ao que se perdeu!

Quanto mais você estiver ligado e preso à situação de perda mais você sofrerá.

Isso não significa que você tenha de esquecer tudo o que foi perdido, o que, aliás, é impossível. Você deve guardar boas lembranças e a saudade de um tempo bom, mas sem alimentar o pesar. Olhar para o passado com sentimento de amargura só aumentará a sua dor.

Terceiro cuidado: Desista de ser valente!

Não tente mostrar uma coragem que você não tem e nem precisa ter.

Deixe fluir as suas emoções. Tenha coragem de entregar-se totalmente a elas. Elas são as lágrimas da sua dor.

Quarto cuidado: Não fuja da vida!

Mesmo que a dor seja intensa como a perda de uma pessoa querida ou a ruptura de um relacionamento que foi prenhe de alegria e felicidade, a vida continua. A perda não é o fim.

Deus não permitiu que Jó continuasse se escondendo. Ele o trouxe de volta à vida. Deus é mais forte que a dor da perda.

Por fim, confie em Deus!

Não ponha a culpa em Deus. Quando se referiu a perda, Jó não ousou culpar a Deus por nada.

O grande tema do livro de Jó não é o sofrimento, não é a perda, não é a dor.

O grande tema do livro de Jó é a soberania de Deus, a providência de Deus, a graça de Deus, a fidelidade de Deus.

Jó continuou colocando Deus no centro de todos os acontecimentos ao declarar: “O Senhor o deu, o Senhor o tomou. Bendito seja o nome do Senhor”.

Todas as coisas estão sobre o domínio soberano de Deus e todas as coisas colaboram para o bem daqueles que amam a Deus.

Somente Deus é capaz do grande milagre em nossas vidas: o milagre de transformar as nossas perdas em ganhos.

Rev. Abival Pires da Silveira
Pastor emérito da 1ª IPI de São Paulo, SP, falecido no dia 1º/9/2019

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